terça-feira, 2 de setembro de 2008

Nisto é que somos bons


Os cartazes estão por todo o lado. Homens e mulheres, atletas, olham para a câmara, directamente. O olhar é duro, decidido. O título proclama, triunfante, "Nisto é que somos bons". 

Isto sim, é gente que não tem medo da concorrência, que não receia estádios cheios, que se sente em casa na alta competição, que salta da caminha ao primeiro sinal da alvorada. Os outros tipos, os que se abarbataram a umas férias pagas nas Olimpíadas, não valiam nada. Os Jogos Paralímpicos estão a chegar e agora é que vai ser.

Os atletas que foram aos Jogos Olímpicos de Pequim, depois dos habituais quatro anos de esforços e sacrifícios, sem apoios, sem dinheiro e sem cobertura mediática, também viveram um momento em que eram os maiores e até faziam anúncios. Eram todos bestiais e iam voltar cheios de medalhas.

Depois, aconteceu o mesmo que a todos os outros países: alguns tiveram bons resultados, mas não chegaram às medalhas. Alguns ganharam medalhas. Alguns fizeram declarações infelizes. Para alguns, chegar às Olimpíadas foi suficiente. Se calhar, até houve um ou dois que nem mereciam lá estar.

A forma como a delegação olímpica passou de bestial a besta e depois, em três pulinhos, a bestial outra vez é muito portuguesa. A forma como o presidente do comité olímpico português anunciou a demissão para depois voltar atrás, também.

Podia ter sido melhor? Certamente. E podia ter sido muito pior. Ao menos não acabaram a competição a dar porrada aos árbitros, como costuma acontecer com a nossa muito apoiada e mediática selecção de futebol sempre que é eliminada de uma competição importante.

Os nossos atletas paralímpicos (e os dos outros) merecem toda a admiração que recebem. O que não merecem é que se comecem a construir à volta deles as mesmas expectativas exageradas que acompanharam o voo da delegação olímpica portuguesa até Pequim, e a sua posterior descida à terra.

Acima de tudo, não merecem fazer parte de uma campanha publicitária ressabiada que achincalha e diminui os atletas que foram à China antes deles.

Nisto é que somos bons: a criar expectativas pouco razoáveis e a crucificar as pessoas que não se mostram à altura.

1 comentário:

Sheila disse...

Para além do mais devia haver mais cuidado com os headlines de onde se pode tirar um sentido contrário ao pretendido.
Digo isto porque no meu caso não estava a par que iam começar os Jogos Paralímpicos, o que fez com que lesse o headline no pior dos sentidos.
Lembrou-me outro cartaz de campanha eleitoral com o Ferro Rodrigues de semblante carregado a anunciar "Coragem", que muito fez rir o taxista que me levava:"Até parece que estão a dizer que é preciso ter coragem para votar neste homem!"
Ou outro outdoor com a caratonha do António Macedo (argh) que tinha um headline a puxar para o ternunrento que prometia que "quando este homem muda de rádio as pessoas mudam de posto" :-D