quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Feliz Ano Novo



Chegamos ao fim de 2008 com 3 guerras muito mediáticas (Palestina, Iraque e Afeganistão) e várias guerras que nem por isso (Darfur, Congo, etc) em curso.

Temos catástrofes naturais e catástrofes feitas pelo homem a ocorrer um pouco por todo o lado, como de costume.

Atravessamos a maior crise financeira anunciada desde a Grande Depressão.

Amanhã, há mais do mesmo.
Mas hoje, nada melhor do que a imagem de uma foca bebé para nos lembrar que o mundo é um lugar de grande beleza, que a vida é preciosa e que o começo de um novo ano é sempre um momento de renovação e esperança. Pelo menos até chegar um caçador com um cacete.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Revolta na prisão


Imaginem uma prisão com cerca de 1 milhão e meio de reclusos, todos condenados a prisão perpétua, todos vivendo com a possibilidade muito real de serem executados a qualquer momento, sumariamente. 
Imaginem que a esmagadora maioria destes presos nunca cometeu qualquer crime, excepto o de não ter fugido quando os guardas chegaram e começaram a erguer muros e a ficar com as suas terras. E que a pequena minoria que os fez cometeu apenas o crime de não aceitar o encarceramento, de tentar derrubar os muros e, de vez em quando, de tentar matar os carcereiros que os colocaram na prisão. Sempre que esta pequena minoria tem sucesso e mata alguém, ou não tem sucesso mas é apanhada a tentar, os guardas apresentam ao mundo este novo crime como justificação para continuar a detenção e para agravar as condições de vida de todos os prisioneiros. 
Imaginem uma prisão que há dois anos  não recebe fornecimentos de energia, comida, remédios. É a nova política prisional para controlar e reduzir o número de presos. Uma vez cortado o fornecimento de todos os bens essenciais à sobrevivência da população, os guardas começaram a usar o contrabando desses mesmos bens essenciais como uma desculpa para novas acções punitivas. A desculpa habitual, de que os prisioneiros devem ser punidos porque continuam a não aceitar a sua condição, começava a parecer aquilo que é. 

A Faixa de Gaza é assim, e nem Kafka teria imaginado uma situação mais kafkiana.

Agora, o estado de Israel lança uma nova ofensiva para castigar os palestinianos. Não por estes continuarem a desafiar o seu estatuto de desalojados e sub-humanos (ou untermenschen como diziam os nazis), mas por continuarem a desafiar o estado de Israel. 

Desde a invasão desastrosa do Líbano, em 2006, que os israelitas andam ansiosos. O seu invencível exército começou a parecer incompetente, até vulnerável. Mais grave, os árabes, tanto os que vivem sob a ocupação israelita como os outros, parecem ter perdido um pouco do receio que tinham do poder de uma das maiores potências militares do mundo. As desventuras de outra potência ocupante, os Estados Unidos, no vizinho Iraque e no distante Afeganistão também contribuiu para este novo estado de espírito. 

Com a sua nova ofensiva em Gaza, Israel procura demonstrar ao mundo árabe que mantém toda a sua capacidade para inflingir perdas desproporcionadas a quem se mete com eles. Como ameaça militar, o Hamas não é sequer comparável ao Hezbolá, mas para exemplo serve muito bem e está mesmo a jeito, encerrado numa faixa de 41km de comprimento por 12km de largura (no seu ponto máximo) que os pilotos de caça-bombardeiros israelitas conhecem como a palma das mãos. Desta vez, assim o desejam os militares/políticos israelitas, a coisa só pode mesmo correr bem. Já estão com um bom avanço: com mais de 200 mortos logo no primeiro dia, Israel nunca tinha morto tanto palestiniano de uma só vez. E já lá vão mais de 60 anos de prática.

Porquê agora? 
A ONU nunca condenará Israel, façam eles o que fizerem, por causa do veto automático dos americanos. Mas o governo sionista achou prudente aproveitar ao máximo os últimos dias da carta branca que recebeu da administração Bush. 
Não é que Obama vá mudar as coisas: ele já fez as juras públicas de eterna devoção ao estado de Israel que todos os políticos americanos são obrigados a fazer. Mas os israelitas ainda não têm a certeza se é mesmo a devoção de um verdadeiro crente ou apenas o oportunismo de um político astuto. Com o nome que tem, Barack Obama não engana ninguém. Ou será que enganou toda a gente?

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Pémio Nobel da Paz, 2009



Uma frota dos Estados Unidos cruza os mares com vasos de guerra russos, esquecendo a nova guerra fria. Navios de guerra chineses e indianos partilham as mesmas águas, colocando de lado as suas disputas fronteiriças. Barcos iranianos navegam junto a navios da NATO sem serem acusados de fomentar o terrorismo.
O que é que pode levar todos estes países a esquecerem as suas diferenças e inimizades, tanto reais como fabricadas,  e a colaborarem para o bem comum? 
Os piratas da Somália. Numa demonstração admirável de igualitarismo e espírito democrático, eles atacam tudo o que lhes aparece à frente, independentemente da raça, credo ou país de origem. Para eles, estamos todos no mesmo barco (ahem), só o valor do resgate é que varia.

Este ecumenismo criminoso levou a uma resposta igualmente abrangente — 11 países da Nato, Estados Unidos, Canadá, França Alemanha, Grécia Espanha, Itália, Holanda, Reino Unido, Dinamarca e Turquia,  mais a neutral Suécia, já têm navios de guerra ao largo da Somália. 

Mas não é só o mundo ocidental que se une contra o flagelo da pirataria: a Índia, a Arábia Saudita, a Malásia, a China, o Irão e a Rússia também enviaram navios para a região. Se acrescentarmos à lista alguns países da zona, como o Quénia, o Iémem e a Etiópia (que nem tem saída para o mar), temos meio mundo a flutuar ao largo da costa da Somália, unido num espírito de amizade e colaboração entre nações como nenhuma seca ou crise humanitária africana (Ruanda, Darfur, Serra Leoa, Libéria, Zimbabué, etc) alguma vez conseguiu gerar.

Por terem unido velhos e novos inimigos numa causa comum, os piratas da Somália são já o candidato natural ao Nobel da Paz do ano que vem. Talvez isso explique o que raio está a fazer a marinha sueca no Golfo de Adém.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Não se metam com a malte



Um navio chinês, o Zhenua 4, foi atacado por um grupo de 9 piratas ao largo da Somália. Com toda a actividade recente que tem havido, o facto já quase não seria notícia, só que esta tripulação não só conseguiu defender-se como, pelos vistos, ainda arranjou tempo para tirar fotografias. Os chineses são mesmo os novos japoneses. 

Durante 4 horas, os 30 tripulantes do navio combateram os piratas com tudo o que tinham, nomeadamente (e revelando um admirável espírito de sacrifício) a sua provisão de garrafas de cerveja. 

Abordados por 7 dos piratas, continuaram a lutar por mais 30 minutos, até os piratas pedirem um cessar-fogo. Helicópteros das forças internacionais chegaram então para os socorrer, quase tarde demais mas mesmo a tempo, como fazia a cavalaria nos filmes do faroeste.

Por falar em cinema, melhor que piratas só mesmo uma tripulação que os combate com sucesso. Ao que parece, o Jackie Chan quer fazer de capitão mas os produtores preferem uma estrela mais jovem como Andy Lau ou Tony Leung.

p.s. já repararam que há imensos americanos com nomes chineses?

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Dá de sola, USA



Muntader Al-Zaidi é o novo herói do mundo árabe, o homem que deu expressão em directo ao sentimento de milhões de pessoas. Um Saudita mais excêntrico até já ofereceu 10 milhões de dólares por qualquer um dos dois sapatos arremessados à cabeça do homem mais poderoso do mundo (até 21 de Janeiro).

Iraquianos (xiitas, sunitas, curdos, pessoas sem nada que fazer) desfilam unidos pelas ruas, de sapato ou chinelo na mão, exigindo a sua libertação, exaltando o seu heroísmo e lamentando a sua falta de pontaria. 
A discussão sobre se ele deve ser libertado ou não aqueceu de tal maneira no parlamento iraquiano que o presidente da assembleia ameaçou demitir-se. Numa demonstração de grande maturidade política, não o chegou a fazer e agora não tem comentários.

Muntader Al-Zaidi está vivo, em larga medida por causa de toda esta comoção. Só não se sabe em que estado está: a família ainda não foi autorizada a entrar em contacto com ele e continua detido sem culpa formada e sem ter sido apresentado a um juiz. Ao que parece, o governo iraquiano não quer que o povo veja como o seu novo herói foi maltratado pelos seguranças (os rumores vão desde ossos partidos a orgulho ferido, com um pouco de tudo o que fica entre os dois). 

A opinião pública sempre foi uma coisa enervante para os regimes autoritários com pretensões democráticas. 
Com os americanos já a dar a corda aos sapatos e poucos amigos internos, Maliki não pode ignorar a opinião pública porque: a) os governos ocidentais acham mal que ele a ignore (o que faria deles apoiantes de um regime não democrático); b) a opinião pública iraquiana vai de AK-47 e RPG para todo o lado e sabe fazer engenhos explosivos improvisados como ninguém. 

O governo iraquiano está de mãos atadas porque ainda tem muito que aprender sobre a verdadeira cultura democrática. Se o caso se tivesse passado numa democracia ocidental, o carácter do jornalista Al-Zaidi já teria sido assassinado publicamente, as suas inevitáveis ligações à Al Qaeda já teriam sido insinuadas há muito, os seus direitos a um julgamento justo já teriam sido anulados pelo seu estatuto de combatente inimigo e as manifestações de rua em sua defesa teriam sido dispersadas pela polícia de choque devido à inevitável presença de elementos radicais violentos entre os manifestantes. 
As ditaduras não têm os mesmos recursos que as democracias para porem os seus cidadãos na ordem. Ou matam ou deixam de meter medo.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

A propósito do zeitgeist ser uma coisa tramada


I'm scared to death that I'm living a life not worth dying for

É a melhor frase do ano e está numa música chamada Red dress, dos TV on the radio
Captura exemplarmente o espírito dos tempos, o sentimento e o dilema de uma geração à procura de um sentido para a vida ou de uma razão para perpetuar a espécie num mundo pós-industrial, pós-11 de Setembro, pós-Bush e pré-Obama, onde até a luz ao fundo do túnel parece contribuir para o aquecimento global. 
Ou não.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

O jornalista suicida



Atirar o sapato a alguém é o pior insulto que se pode fazer no Iraque. Quando as estátuas de Saddam Hussein começaram a cair, em 2003, multidões de iraquianos correram para as ruas para agredir a imagem do seu ditador com o sapato que tinham mais à mão. 
Como Bush já cometeu a proeza de matar mais iraquianos, em nome da democracia, do que o ditador que depôs, a fúria do senhor Muntader Al-Zaidi, na foto, é compreensível. 
A tareia que levou a seguir, enquanto Bush gracejava, na sala ao lado, que a democracia era aquilo mesmo, não foi propriamente surpresa: o novo regime iraquiano partilha da cultura de brutalidade da ditadura que o antecedeu, e não aprendeu nada de bom com a superpotência que o instalou no poder.
Muntader Al-Zaidi, sendo jornalista, certamente sabia que não lhe ia acontecer nada de bom. Mas teve pouco tempo para pesar os prós e os contras, ou para praticar: tanto o primeiro como o segundo sapatos falharam o alvo. É por estas e por outras que Bush só visita sítios como o Iraque e o Afeganistão de surpresa. 
Na melhor das hipóteses, a carreira de Al-Zaidi está morta. Na pior, ele também. A única coisa que o pode salvar é que o seu gesto desesperado e fútil o torne num herói aos olhos dos seus conterrâneos. O governo Maliki, nunca muito popular, não precisa de criar mais um mártir da liberdade de expressão.
Quanto aos sapatos, reacenderam as esperanças da administração Bush de encontrar as armas químicas que justificariam a invasão do Iraque.

Cockpuncher



O trailer do melhor filme de artes marciais que nunca existiu. É a melhor parte de The Onion Movie e é uma espécie de redenção para Steve Seagal.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

O feudalismo acabou na quarta-feira


A ilha de Sark, uma das ilhas britânicas do Canal da Mancha, é o último território europeu a abolir o feudalismo. 
Até à realização de eleições no dia 10 de Dezembro, esta pequena ilha foi governada num sistema feudal clássico, como o que se tornou muito popular entre as classes não populares durante a Era das Trevas.
Entre outros privilégios, o senhor feudal da ilha, chamado Seigneur (por tradição e afectação) era a única pessoa que podia ter pombos ou uma cadela não esterilizada. É uma forma de loucura institucionalizada, mas suponho que seja bom para o turismo.

Com apenas 5,45 km2 e cerca de 600 habitantes, a ilha não tem carros nem aeroporto (nem vê necessidade de os ter). Apenas a obrigatoriedade de mudar o sistema, para ficar em conformidade com a Convenção Europeia dos Direitos Humanos, levou ao processo democrático em curso. 

Sark reeclama também jurisdição sobre uma pequena ilha vizinha, Brecqhou, que é propriedade dos irmãos Barclay desde 1993. Os milionários britânicos conduzem carros e até um helicóptero na "sua" ilha de 80 hectares, à revelia da lei local, e contestam a autoridade de Sark sobre Brecqhou.

As eleições foram vistas como uma oportunidade para mudar este estado de coisas. Prontamente, a ilha dividiu-se em dois campos: os apoiantes do sistema feudal vigente e a lista dos reformistas, aprovada e apoiada pelos irmãos Barclay com o objectivo de mudar radicalmente as leis da ilha, presumivelmente para poderem conduzir à vontade nos seus 80 hectares.

Resultado das eleições?
1º- 57 candidatos, quase 10% da população, concorreram a um dos 28 lugares de Conseiller disponíveis na nova assembleia: apenas 5 candidatos apoiados pelos Barclay foram eleitos. 
2º- Os irmãos anunciaram o fecho de todos os seus negócios em Sark, incluindo hotéis, lojas, agentes imobiliários e empresas de construção. 100 pessoas, um sexto da população, vai ficar no desemprego pelas suas convicções autocráticas. 

Mas deram uma lição de democracia ao mundo: votem no que quiserem desde que não se metam entre um milionário e o seu Bentley.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

O dia que não mudou o mundo



Antes dos ataques ao Taj e a outros locais de interesse turístico em Bombaim,  o subcontinente indiano assistiu a outro atentado, de grandes dimensões, a um hotel de luxo. A 20 de Setembro, o Hotel Marriott foi atacado por um camião bomba com o já habitual terrorista muçulmano ao volante.

A explosão foi ouvida a 15 km de distância e criou uma cratera em frente ao hotel com mais de 20 metros de diâmetro por 6 de profundidade, tendo a maior parte do hotel sido consumido pelas chamas. O atentado causou pelo menos 54 mortos e centenas de feridos, incluindo pessoas importantes como turistas estrangeiros. Como de costume, a maioria dos mortos e feridos era autóctone.

A diferença é que o Marriott fica em Islamabad que, como o nome indica, é a capital de um país muçulmano, o Paquistão. O que significa que os mortos, paquistaneses, eram tão muçulmanos como o imbecil que os matou ou as bestas que o enviaram. 

Depois dos ataques de Bombaim, políticos ocidentais afirmaram solidariamente: "somos todos indianos", recauchutando o "somos todos americanos" do pós 11 de Setembro. Naturalmente, não apareceu ninguém a dizer "somos todos paquistaneses" depois da devastação em Islamabad. 

Mas esquecem que os indianos não são todos hindus: vivem mais muçulmanos na Índia do que no Paquistão. E esquecem que os extremistas hindus matam tantos muçulmanos (e cristãos também, já que falamos nisso) como os extremistas muçulmanos matam hindus.

Só para lembrar quem as principais vítimas do terrorismo islâmico rezam viradas para Meca.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Sexta-feira negra


Black Friday é o nome que os americanos dão à primeira sexta-feira a seguir ao Dia de Acção de Graças. Tradicionalmente, a data marca o início das grandes promoções de Natal. É a dia em que a contabilidade das lojas começa a sair do vermelho do prejuízo e entra no negro do lucro.

É o maior dia de compras do ano, com os melhores descontos e as ofertas mais irresistíveis. Para os lojistas, uma black friday bem sucedida pode ser uma questão de vida ou de morte financeira. Para muita gente, é a grande oportunidade para comprarem mais qualquer coisa de que não precisam e que não têm meios para ter.

As ofertas são anunciadas de antemão e as portas abrem mais cedo, para maximizar o consumismo desenfreado de uma multidão atafulhada de perú e acicatada até ao frenesim pelo ar desapontado dos sogros durante o Thanksgiving.

Mas esta Black Friday foi especial. Num Wal-Mart em Long Island, um empregado morreu esmagado pela multidão em fúria. Chamava-se Jdimitay Damour e era, ao que tudo indica, um ser humano. Para a multidão, no entanto, era só mais um obstáculo que os separava de um iphone baratinho.

Causa da morte: preços baixos. Nasceu o assassinato por consumismo.

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

New York • London • Madrid • Bombaim



Bombaim já não se chama assim: o bombaim era coisa de europeu que não percebe o que lhe estão a dizer. Agora é Mumbai, como dizem as pessoas de lá. 

Tem bairros da lata do tamanho de cidades, tensões entre hindus e muçulmanos e outras coisas que a conservam naquele limbo entre o primeiro e o terceiro mundo de todas as grandes urbes dos países em desenvolvimento.

Mas também é a cidade mais rica da Índia e centro financeiro da segunda maior economia emergente do mundo. Bollywood fica lá, o que significa que é a cidade com que mais de mil milhões de indianos sonha. A cidade tem mais milionários por quilómetro quadrado do que Manhattan e é o motor do triunfo anunciado da economia indiana sobre si mesma.

Mumbai é tudo isto e muito mais. E é por tudo isto que a cidade se tornou um alvo. 

Bem-vindos ao primeiro mundo.

Os piratas satânicos


Os fundamentalistas islâmicos que andam a ver se tomam o poder na Somália (e que têm as proverbiais ligações à Al Qaeda) declararam guerra à pirataria. O motivo? Os piratas atacaram um navio muçulmano.
Destinado a terras infiéis mas carregado com o petróleo dos verdadeiros crentes, o superpetroleiro Sirius Star foi desviado pelos ímpios piratas somalis da sua missão sagrada de sugar divisas ao Ocidente cristão. 
Quando os muçulmanos mas pragmáticos piratas capturam barcos do Iémene, ou de outros portos muçulmanos, não parece ser sacrilégio. O que o Sirius Star tem de especial é que pertence a uma companhia saudita. É dinheiro da Arábia Saudita que está ancorado ao largo de um porto da Somália e eles querem-no de volta. 

O que é perfeitamente legítimo. Usar terroristas para o obter, no entanto, é levar a expressão "o inimigo do meu inimigo é meu amigo" um pouco à letra demais. 

Só quem ainda tem dúvidas de que a Arábia Saudita financia e controla de facto o fundamentalismo islâmico em todo o mundo é que pode estranhar a rapidez com que os islamitas somalis responderam ao apelo dos seus mestres sauditas. Mas a única coisa invulgar no meio disto tudo é a falta de subtileza. 
Ou talvez não: o reino fundamentalista que nos deu Bin Laden, 15 dos 17 terroristas do 11 de Setembro e os Talibãs está habituado a escapar impune.

p.s. Os piratas também.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Perdoar é divino


A Igreja Católica perdoou John Lennon por ter dito que os Beatles eram mais famosos que Jesus Cristo e que o rock ia durar mais do que o cristianismo. Segundo eles, era um rapaz ainda muito novo e deslumbrado com o sucesso. Perdoai-os Senhor, que eles não sabem o que fazem, como se costuma dizer. 
Num assunto não relacionado, um jovem suicidou-se em directo na web, tendo o facto apenas sido comunicado às autoridades 12 horas depois do moço ter parado de mexer. A família não percebe porque é que ninguém fez nada antes, durante ou depois.
Tem importância o perdão da Igreja, anos depois da morte de John Lennon? Fazia diferença se a polícia ou os paramédicos ou alguém tivesse sido avisado do suicídio anunciado? Por vezes, mais vale tarde do que nunca deixa de ser sabedoria popular para se tornar naquilo que é realmente: tarde demais e irrelevante.

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Uma nova abordagem



Num gesto de desafio, ou indiferença, aos esforços da comunidade internacional para os deter, um grupo de piratas da Somália capturou mais um navio. E não foi um navio qualquer, é a maior presa capturada por piratas de sempre, Barba Negra e Capitão Morgan incluídos.

O superpetroleiro Sirius Star, transportando mais de 100 milhões de dólares em crude, foi atacado ao largo da costa queniana. Depois de abordado, o navio foi levado para águas próximas da costa da Somália, onde ficará ancorado até o resgate ser pago. Não se receia pelos 25 tripulantes a bordo porque os somalis costumam tratar bem os marinheiros capturados. É só um negócio.

Apesar da sua carga extremamente valiosa (ou por causa dela), não é possível prever quando é que o Sirius Star será libertado. É que os donos são os sauditas da Aramco, e talvez eles não estejam com muita pressa. A OPEC anda há semanas a tentar travar a descida do preço do petróleo. Cortes de produção, ameaças de cortes de produção, nada parecia resultar. A simples captura deste navio, no entanto, levou a uma subida imediata do preço do barril de petróleo.

Se os proprietários conseguirem arrastar as coisas por uns tempos, ou gerar insegurança relativamente a novos ataques, sabe-se lá onde os preços poderão chegar. Quem diria que a solução para os países exportadores de petróleo podia estar mesmo à sua porta, num dos países mais pobres do mundo, sem governo, petróleo ou riquezas de espécie alguma.

E o futuro da pirataria promete. 
Com 329 metros de comprimento e uma tonelagem 3 vezes maior que a de um porta-aviões americano, a visão deste gigante dos mares a ser tomado por somalis em barquinhos com motor fora de borda, debaixo dos narizes de várias marinhas ocidentais, é pelo menos tão inspiradora como a história de Aljubarrota, de David e Golias ou de Tom & Jerry. Os pastorinhos de cabras somalis já sabem o que querem ser quando crescerem.

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

A recessão dos mortos-vivos


A economia japonesa tem vindo a perder competitividade devido a um fenómeno tão japonês como o hara-kiri ou os gangsters sem o dedo mindinho: as empresas zombie. 
Estas companhias, ineficientes e afogadas em dívidas, são mantidas num estado morto-vivo graças a injecções periódicas de capital por parte desses cientistas loucos que são os bancos japoneses, para assegurar que o país continua a ter um baixo nível de desemprego. A manutenção destas criaturas no mercado, por sua vez, torna mais difícil o crescimento de empresas vivas e saudáveis, arrastando toda a economia para baixo. 

Como os seus congéneres cinematográficos, as empresas zombies arrastam-se lentamente pelos mercados, devorando clientes e fornecedores que não correm o suficiente ou se deixam encurralar numa casa isolada no cimo de uma colina que, por coincidência, fica mesmo ao pé de um cemitério onde um camião cheio de materiais radioactivos teve um acidente. Ou coisa do género.

Os Estados Unidos sempre criticaram os bancos japoneses por estas práticas de reanimação artificial e pelo efeito pernicioso que têm sobre a economia. Deve dar um certo gozo aos japoneses verem agora um godzilla da indústria automóvel como a General Motors pedir ao governo que o salve da falência com uma injecção de capital dos contribuintes. 
O argumento para salvar a GM é o mesmo que foi usado para salvar a A.I.G., a Fannie Mae ou o Freddie Mac: são grandes demais para que os deixem simplesmente morrer e ser enterrados. A GM é mesmo tão grande que até deu em provérbio americano: o que é bom para a General Motors é bom para os Estados Unidos.
Mas a indústria automóvel de Detroit já recebeu mais do que um bailout do governo, e nunca aproveitou a oportunidade para se actualizar e começar a produzir carros capazes de competir com os europeus e os japoneses. A morte da GM anda a ser anunciada há muito tempo. 

Nada tornaria tão evidente o enterro oficial das "voodoo economics" dos anos Bush como uma General Motors reduzida a companhia zombie. Mas será vantajoso para a economia americana manter artificialmente animado um cadáver em rápida desactualização como a GM? Que tal praticarem um pouco o capitalismo que pregam ao mundo e deixarem a empresa entregue à morte certa da lei do mercado? 
Ou será que vão repetir os erros dos japoneses? Como sabe quem já viu filmes sobre os mortos-vivos, quem se deixa rodear por zombies mais cedo ou mais tarde fica sem ter por onde fugir.

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Have a nice dick, o regresso


Pela primeira vez desde que começou a crise financeira nos Estados Unidos, o spam que chega no email deixou de ter mensagens sobre como escapar às dívidas ou resolver os problemas de crédito.

Na verdade, parece que bastou Obama ganhar as eleições para acabar com a grande depressão do spam americano. As boas velhas preocupações com as insuficiências sexuais voltaram, substituíndo as novas preocupações com a insuficiência financeira. 

De um momento para o outro, subjects solidários e compreensivos como “Weakening Male Power?” insinuam uma nova sensibilidade, mais aberta ao diálogo.
Frases como “More diameter, more feeling” revelam uma nova e refrescante perspectiva sobre as formas tradicionais de medir as coisas.
Um título como “Join big size guys community”, claramente inspirado no exemplo de Obama como organizador comunitário, demonstra uma nova cultura de entreajuda, um desejo de criar um mundo onde não importa a cor da pele ou a religião, apenas a dimensão do abono de família.

Mas este retorno à auto-indulgência é temperado por um novo realismo económico. Num sinal de que a vida (ao contrário de certas partes da anatomia) continua dura, as restantes mensagens falam de como obter medicamentos (ler: Viagra e concorrência), ora online ora no Canadá, a preço de amigo.

Com a eleição do primeiro presidente negro, era normal que certas inseguranças relativas ao tamanho do membro viril voltassem a erguer-se. Esperemos que seja tão fácil para Obama mudar a situação económica como foi mudar o lixo do correio electrónico.

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Às armas


Apesar de só tomar posse em Janeiro, Barack Obama já começou a resolver a crise económica.
Com o crédito mal desbaratado e sem dinheiro na carteira, as pessoas estão a cortar o consumo na pior altura do ano possível para a maior parte dos comerciantes.

Mas há um ramo de negócio nos Estados Unidos que está a registar uma subida significativa no volume de vendas desde que Obama foi eleito: a venda de armas.

Na verdade, bastou a ameaça de que as eleições iam ser ganhas por um senhor preto chamado Barack, Hussein e Obama, para fazer as vendas disparar. A vitória do candidato democrata só veio reforçar a tendência geral do mercado.

Para os vendedores de armas, o presidente eleito não passa de um socialista que vai tirar as armas às pessoas honestas e estabelecer um estado policial centralizado. Em privado, no entanto, agradecem a Santa Bárbara pela eleição de Obama. É bom para o negócio.

Esta corrida ao armamento doméstico tem a ver com o tradicional receio de que uma administração democrática acabe com o direito de ter armas consagrado na constituição.

Apesar de a campanha de Barack Obama ter afirmado que ele ia manter todos os direitos dos proprietários de armas, podia estar a dizer coisas só para ser eleito. Afinal, ele é um político. Para muitos compradores, trata-se simplesmente de ser cauteloso. Comprar agora antes que acabe, que as leis não têm efeitos retroactivos. O mercado de armas, parece, funciona ao contrário da Bolsa: quanto maior a incerteza política, melhor o negócio.

E depois, há sempre aquele elemento meio alucinado da sociedade americana que acha que um Obama na Casa Branca é um prenúncio do apocalipse, e que é melhor estar preparado para receber as hordas minoritárias que vão destruir tudo o que há de bom, puro e branco (são sinónimos) na América.

Durante a campanha, Barack Obama foi muito criticado por ter afirmado que os americanos têm tendência para se agarrarem às armas e à religião em tempos de adversidade. A bonança na venda de armas revela uma das razões porque ele ganhou as eleições: conhece muito bem o seu eleitorado.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Quando o hábito não faz o narcotraficante


As forças armadas americanas sempre tiveram uma aproximação quantitativa à maneira como se faz a guerra, uma atitude comum em países materialmente ricos e com aversão a baixas. 

No Vietname, o progresso do conflito era medido inteiramente em termos de contagem de mortos: se eles perderam dez e nós perdemos um, ganhámos. 
Naturalmente, esta mentalidade resulta numa certa tendência para inflacionar o número de inimigos mortos num dado combate, para procurar ficar bem visto aos olhos dos superiores. 

O maior problema é que os ditos superiores começam a imaginar que as coisas estão a correr melhor do que na realidade. No final da guerra do Vietname os americanos tinham morto mais de 2 milhões de soldados e civis vietnamitas e tido perdas de apenas 55 mil soldados.

Lembram-se de quem ganhou?

Na Colômbia, o General Mario Montoya, comandante em chefe do exército, apresentou esta semana a sua demissão por causa de um escândalo que está a abalar o país (pelos vistos, ainda é possível chocar os colombianos).

Aparentemente, militares sobre o seu comando atraiam gente pobre dos bairros de lata de Bogotá talvez com a promessa de que iam passar a ter onde cair mortos. Os infelizes eram então levados para as zonas de guerra no norte do país, onde eram abatidos, vestidos com uniformes das FARC e quejandos, e rodeados de algum equipamento militar, como uma ou duas Kalashnikovs, para compor a cena. Depois, era só classificar os massacres como vitória contra o narco-terrorismo, contar as cabeças e enterrar os restos em valas comuns.

A morte recente, nestas circunstâncias, de 11 jovens de Bogotá fez o escândalo vir para as primeiras páginas dos jornais, mas o problema já é tão antigo que as vítimas até têm nome: falsos positivos.
27 oficiais e soldados, incluindo 3 generais, já foram demitidos e estão sobre investigação. Mas é preciso procurar mais alto (ou baixo, conforme o ponto de vista) pelas raízes do problema.

O General Mario Montoya foi treinado nos Estados Unidos da América. Todo o exército colombiano, na verdade, segue fielmente o manual de fazer a guerra das forças armadas americanas. Não surpreende, portanto, que muitos dos subordinados do general, com ou sem o seu conhecimento, tenham começado a pensar em formas de inflacionar os números da guerra a seu favor. É aquela mentalidade de querer mostrar serviço, levada a uma conclusão extrema mas nem por isso desprovida de lógica.

A guerra feita por contabilistas dá nisto.

Pormenor: a CIA e o governo dos Estados Unidos analisam as acções das forças armadas colombianas antes de dar o aval ao fornecimento de auxílio militar e económico, que anda à roda dos 500 milhões de dólares anuais. Eles não deviam saber de nada ou não lhes davam o dinheiro. Pois não?

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Obama Vs McCain face off




Não é por acaso que as eleições foram tão disputadas. Ambos os candidatos revelaram uma agilidade notável, com McCain a surpreender na recta final com uns golpes de rins surpreendentes, especialmente num homem da sua idade.

Para quem já tinha saudades


O filho de um imigrante muçulmano do Quénia, de origens modestas, tornou-se presidente do país mais poderoso do mundo. O sonho americano está de volta, e recomenda-se. 

Pelo menos por uns tempos, a América volta a ser a terra da oportunidade, onde não há limites para o que podemos fazer ou até onde podemos chegar. 

As "massas pobres e oprimidas do mundo, desejando serem livres", já têm outra vez com que sonhar. 

O mundo acordou um pouco melhor hoje, aproveitem enquanto dura.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Missão comprida


Faltam poucas horas para os Estados Unidos da América elegerem o seu primeiro presidente negro, e começarem o longo e doloroso processo de perceber que ele não é o messias.

Ou para o resto do mundo, com um misto de superioridade e pânico, apontar a vitória de McCain como a prova final de que os americanos são o povo mais profundamente bronco da terra.

Espero que Barack Hussein Obama ganhe porque é melhor ter esperança e ficar desapontado do que não esperar nada e ficar agradavelmente surpreendido. E porque se McCain ganhar, vou ter de ir a Fátima rezar para que ele tenha muita saúde nos próximos 4 anos.

De uma forma ou de outra, até que enfim que estas eleições presidenciais chegaram ao fim. Pelo menos durante uns bons dois anos, não voltamos a ouvir falar do longo curso do processo democrático americano.

E o candidato da Al Qaeda é?


Poucos dias antes das eleições americanas de 2004, apareceu um video de Osama Bin Laden no qual o terrorista mais procurado do mundo e homem mais odiado da América dava o seu apoio a John Kerry. O candidato democrata afirmou mais tarde que o patrocínio de Bin Laden tinha sido uma das principais causas da sua derrota eleitoral.

Com as eleições de 2008 à porta, ainda não houve um novo video de Bin Laden dirigido ao público americano, mas uma página web de apoio à Al Qaeda deixou claro que McCain é o candidato favorito.

O site sugeria mesmo um ataque terrorista pré-eleitoral, racionalizando que qualquer ataque seria mais benéfico para o candidato republicano do que para um candidato chamado Obama.

A razão para este apoio é simples: com McCain na presidência, é menos provável que as guerras no Afeganistão e Iraque acabem. Talvez ele até comece uma guerra nova. Para a Al Qaeda, um McCain pouco moderado e ainda menos ponderado, combinado com a fragilidade actual da economia americana, são uma combinação perfeita.

A candidatura de Barack Obama traz consigo a esperança de mudança, do fim da guerra e de dias melhores. E não há nada tão negativo para uma organização terrorista como o nascimento de esperança entre as suas fontes de recrutamento.

Como dizem os candidatos americanos no final dos tempos de antena:
Sou Osama Bin Laden e aprovo esta mensagem.

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Crazy 88



Uns moços neo–nazis, Daniel Cowart, de 20 anos (acima) e Paul Schlesselman de 18, conheceram-se na internet e combinaram matar Barack Obama. O motivo, como a família de um explicou mais tarde, era que eles não gostavam de pretos (mas não são maus rapazes). 

O plano deles revela todo o génio de que só um redneck de raça pura do sul profundo da América é capaz: iam aproximar-se do candidato democrata num carro a alta velocidade enquanto disparavam pelas janelas. De certeza que ia resultar.

Mas primeiro, iam assaltar uma loja para arranjarem o arsenal necessário, que o que tinham em casa não chegava. Depois, tencionavam visitar uma escola predominantemente negra e começar a matar alunos, professores e quem mais lhes aparecesse à frente, até chegarem ao número mágico de 88 pretos mortos, dos quais 14 seriam decapitados. Obama era só a cereja em cima do bolo.

Porquê 88?

Porque 8 é código para a oitava letra do alfabeto, o H. Repetido dá HH, que é código para Heil Hitler. Quanto às 14 decapitações, era porque o 14 é o número de palavras duma frase que é um dos credos destes moços "We must secure the existence of our people and a future for white children” escrita por um neo-nazi chamado David Lane que por sua vez se inspirou numa passagem de 88 palavras do oitavo capítulo do Mein Kampf.

Podemos sentir-nos tentados a encontrar algum misticismo, verdade profunda, força obscura, ou o que quer que seja, nestes números. Pessoalmente, o que me surpreende não é o padrão, é eles saberem contar.

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

O galo afegão


Nos anos 80, os afegãos tornaram-se a menina dos olhos dos americanos. Invadidos pelo Império do Mal da altura, a União Soviética, eles tinham pegado em armas em condições de enorme inferioridade técnica e conquistado a admiração e apoio de todo o Mundo Livre.

Eram Combatentes da Liberdade contra a opressão comunista, guerreiros de Deus contra o ateísmo soviético. O Afeganistão ia-se tornar no Vietname dos comunistas e até o Rambo lá foi dar uma ajuda, para que não houvesse dúvidas.

20 anos depois, é tudo diferente.
Os combatentes da liberdade são senhores da guerra corruptos e brutais e os guerreiros de Deus são talibãs fanáticos. Mas está tudo na mesma. O país continua pobre e em guerra, a exportação de ópio continua a ser maior fonte de receitas e os afegãos continuam intratáveis.

Agora, é a vez de uma nova superpotência, a América, aprender a lição que não tirou dos livros de história, dos noticiários dos anos 80 ou do Rambo III: é má ideia invadir o Afeganistão.

Anos depois da intervenção da Nato, a Al Qaeda está firmemente restabelecida na terra de ninguém que são as áreas tribais junto à fronteira, a popularidade e eficácia militar dos Talibãs estão a aumentar, as baixas de militares ocidentais já são mais elevadas do que no Iraque e a guerra começa a extavasar para o Paquistão, cujo controlo é o grande objectivo dos fundamentalistas e que é uma potência nuclear notoriamente instável.

Oficias britânicos, que percebem uma coisa ou duas de contra-insurreição, já afirmaram que o problema afegão não tem solução militar. O presidente do Afeganistão (mais precisamente, de Cabul e arredores) já se reuniu discretamente com representantes dos talibãs na Arábia Saudita, o reino absolutista que comete diariamente a proeza de financiar os talibãs e ser aliado dos Estados Unidos.

Os americanos condenam as visões pessimistas dos seus aliados britânicos como derrotistas e prometem que, com mais tropas, vão alcançar a vitória final. Como aconteceu no Vietname, o tempo que eles persistirem neste caminho vai determinar as dimensões finais dos estragos.

Independentemente de quem ganhar as eleições americanas, o próximo presidente vai acabar por ter de aceitar que talvez uma solução diplomática seja inevitável.

Depois dos 7 anos de “não negociamos com terroristas” e de “ou estão connosco ou contra nós” de Bush, os afegãos estão prestes a conseguir o que parecia impossível: pôr um fim à relutância americana em encontrar soluções negociadas para problemas que pode bombardear.

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Os extremos tocam-se (sugestivamente)



Stefan Petzner, 27 anos, o sucessor do falecido Joerg Haider, 58 anos, como líder da Aliança para o Futuro da Áustria (BZOe), o partido nacionalista austríaco, confessou em público ser seu amante. A Áustria conservadora (e racista, xenófoba e homófoba, mas adiante) ficou chocada por descobrir que o Futuro da Áustria afinal é cor de rosa.

Há mais:

Pim Fortuyn, o ex-líder  de um partido anti-emigração (especialmente muçulmana) era um homossexual assumido, alegadamente assassinado por um activista dos direitos dos animais por causa dos seus insultos à cultura muçulmana.

Senadores e congressistas republicanos foram apanhados em práticas sexuais aberrantes aos olhos do Senhor. Seja em casas de banho públicas, com quem apareça, seja nos corredores do Capitólio, com os rapazes do serviço de pagens, os políticos apanhados são, invariavelmente, alguns dos homófobos mais entusiastas do partido republicano.

Há qualquer coisa na homofobia de extrema direita que atrai um homossexual ao ponto de querer fazer parte dela. É como um ateu querer ser padre, um rasta tornar-se skin ou um judeu virar nazi. 
Devem ser as botinhas de cabedal.

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

El park


Entre San Diego e Tijuana começa uma linha que separa as terras que os mexicanos perderam das terras que conseguiram conservar. Um obelisco assinala o ponto onde uma equipa de agrimensores dos dois países iniciou, 160 anos atrás, a transcontinental tarefa de determinar, exactamente, onde a fronteira ficava.

Hoje, as comunidades dos dois lados da fronteira reúnem-se à sombra do obelisco, numa zona que se tornou conhecida como Friendship Park.

Uma simples vedação assinala a fronteira neste local, dividindo o parque ao meio mas permitindo que as pessoas conversem umas com as outras com uma facilidade que não existe em quase mais nenhum lado da longa fronteira entre os dois países. 

Claro que não são apenas beijos, tacos, saudades e boa vontade que são trocadas no local.

Segundo a patrulha fronteiriça americana, as facilidades de comunicação do parque são outras tantas oportunidades para traficantes e outras pessoas de má índole abusarem da lei. 

A única solução é a solução do costume: querem fazer uma barreira mais a sério, que impeça as pessoas de se tocarem, de preferência com uma zona de ninguém e muito arame farpado para dificultar ainda mais a passagem e ajudar a manter as distâncias.

Como sempre acontece por estes dias, a segurança, seja contra o terrorismo seja contra a a concorrência mexicana no mercado de trabalho, é a única preocupação a ter algum peso. O que importa a vida das famílias que precisam do parque para terem um simulacro de vida em família? A segurança nacional fala sempre mais alto. Ou talvez seja apenas xenofobia mal disfarçada.

Há que manter os mexicanos do lado sul na linha e fazer de conta que as pessoas do lado norte não são mexicanos também, parte de uma comunidade que se vai mantendo em contacto à sombra de um monumento erigido à sua separação oficial. 

Depois de anos de embargo à África do Sul por causa do Apartheid, depois de décadas de conflito com o mundo comunista por causa da Cortina de Ferro, a América está a perder a autoridade moral que tinha e a recorrer às soluções que antes criticava como próprias de regimes opressivos. 

Fazer muros e fingir que não se passa nada do outro lado parece ser a solução para tudo.

Também a europa está dividida entre a necessidade económica de importar 20 milhões de trabalhadores nos próximos anos só para manter a economia em crescimento, e a necessidade política de agradar a um eleitorado crescentemente xenófobo.

Nomes como Parque da Amizade estão destinados a tornaram-se piadas de mau gosto, relíquias de uma época mais ingénua (ou inocente, depende da maneira como vemos o mundo).

Mas é como diz a anedota: 
Se não deixam os mexicanos entrar, quem é que vai construir o muro?

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

É oficial?


A Casa Branca usou o termo recessão pela primeira vez. Edward P. Lazear, o director do Council of Economic Advisers da Casa Branca, usou a palavra Recessão para descrever a situação económica de algumas regiões dos Estados Unidos.

É uma admissão que só faz notícia porque a recusa de admitir que a economia dos Estados Unidos caminha para uma recessão é uma pedra basilar da política económica de Bush. Se não dissermos a palavra e tivermos só pensamentos felizes, a economia cuida de si sem a nossa ajuda.

Não é só na economia que o actual governo americano tenta fazer desaparecer problemas fazendo de conta que eles não existem.

O aquecimento global, por exemplo, apenas ameaça o resto do mundo. Depois de quase 8 anos de negação, só muito recentemente o presidente do país que mais contribui para o problema veio a público afirmar que, afinal, até havia algumas provas de que o aquecimento global estava mesmo a acontecer. Quanto a fazer alguma coisa, terá de ficar para o próximo presidente.

Também só admitiu que as coisas no Iraque não estavam a correr tão bem como o planeado anos depois de toda a gente ter percebido a monumental asneira que a invasão e, principalmente, a ocupação foram.

Fiel a si mesmo, Bush continuou a afirmar que havia armas de destruição maciça no Iraque anos depois de ter ficado provado que nem por isso. Eventualmente, começou a usar outro racional para justificar a invasão (Saddam era mau), sem nunca ter admitido que estava errado.

Afirmou ainda que a América não tortura pessoas e, quando apareceram provas do contrário, redefiniu o que era tortura ou não. A credibilidade dos Estados Unidos como líder do mundo livre nunca mais foi o mesma. 

Não é por acaso que, nestas eleições, se fala tanto em recuperar o prestígio da América no mundo. É mais uma tarefa para o próximo presidente.

Bush lida com o falhanço recusando-se a aceitar que falhou, prosseguindo com políticas e nomeações obstinadamente, muito depois de já terem ficado fora de prazo.

Não era bom que o pior presidente americano de todos os tempos tivesse finalmente razão? Que a economia americana não estivesse a entrar numa recessão e a arrastar a economia mundial com ela?

Era. Mas pensar assim é pensar como George W. Bush.

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

A voz do operário


Os políticos americanos (ou todos) passam a maior parte do seu tempo a navegar nos círculos sociais mais rarefeitos. É lá que está o dinheiro, é da sua aprovação e patrocínio que dependem as suas carreiras, são os seus interesses que lhes interessa defender. 

Mas algo curioso ocorre de 4 em 4 anos: os políticos tornam-se homens do povo. Este fenómeno, chamado período eleitoral, é uma parte integrante, embora inconveniente, do processo democrático. 

Eles começam a sentir os problemas das pessoas comuns, os "verdadeiros americanos", como se fossem os seus. A maneira como falam muda, tornando-se mais simples, directa e coloquial (Hillary Clinton até mudava de sotaque conforme o estado em que estava). Chegam mesmo a abandonar os restaurantes de luxo a favor de casas de hamburgers. 

O povo aprecia estes sacrifícios: se o candidato está disposto a esquecer os seus anos de educação superior, se finge pertencer a outra classe social e se está disposto a ficar com o colesterol alto só para ser eleito, é porque é um político dedicado e pronto a servir uma causa maior. 

A grande vantagem de Obama, o seu talento de orador, torna-se assim na sua maior fraqueza: Obama, que não é rico e não teve uma infância privilegiada, é visto como elitista porque se exprime correctamente.

Com Joe, o canalizador, a campanha de McCain viu mais uma oportunidade de fazer o seu candidato-milionário-que-não-se-consegue-lembrar-em-público-de-quantas-casas-tem, parecer próximo das aspirações e desejos da classe trabalhadora. Joe quem?

Joe (o nome de família não interessa porque os candidatos são íntimos dele) é um canalizador que falou com Obama na rua,  uns dias antes do debate, exprimindo os seus receios relativamente ao plano do candidato democrata de aumentar os impostos a pessoas com rendimentos anuais superiores a 250.000 dólares (mais de 185 mil euros).

Acontece que Joe, o canalizador, é também Samuel Joe Wurzelbacher, o pequeno empresário que quer investir num negócio de canalização que pode fazer mais do que esse dinheiro anualmente. O pobre Joe não quer ver os seus impostos subir porque, como a maior parte dos americanos que ganha bem, ele acha que a segurança social, os serviços de saúde, etc, não passam de um complot cripto-comunista criado por pessoas que não querem trabalhar para sugarem dinheiro aos que fizeram algo das suas vidas. 

Ambos os candidatos utilizaram Joe, o canalizador, como exemplo de tudo o que está mal nas propostas do seu adversário: 
Segundo McCain, o negócio de Joe vai sofrer com o aumento dos impostos e ele vai acabar arruinado e a ter de dar os filhos para adopção. 
Segundo Obama, haveria muitos mais empresários como Joe se as pessoas que ganham menos de 250.000 dólares por ano tivessem uma redução nos impostos que pagam actualmente.

O seu nome foi referido 26 vezes. Ao longo de mais um debate monótono e sem surpresas, aprendemos que a opinião de Joe, o canalizador, é a única relevante em todos os Estados Unidos. O candidato que conseguir que Joe vote nele tem a eleição garantida.

Depois da canonização em directo de um (quase) humilde canalizador como voz dos eleitores e símbolo da classe operária, houve tempo para um pouco de humor e leveza. No dia seguinte, num jantar de caridade com a presença dos dois candidatos, McCain divertiu a audiência afirmando que os impostos de Obama não vão afectar Joe porque o canalizador tinha acabado de fechar um contrato lucrativo para cuidar das suas 7 casas. E dizem que os políticos não são divertidos. 

Quanto a Samuel Joe Wurzelbacher, deve estar ansioso pelo 4 de Novembro para poder regressar ao seu anonimato de fuga aos impostos e trabalho de canalizador sem licença. 
E para redescobrir o conforto de passar mais 4 anos sem ter de se preocupar com o que é decidido em seu nome. 

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Esta política energética é uma poda


Nas avenidas novas, em Lisboa, vi uma árvore perfeitamente saudável ser derrubada porque estava a fazer sombra a um parquímetro.

Faz sentido: o painel solar está lá para proteger o meio ambiente.

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

A laska


Quando conheceu Sarah Palin, a América ficou apaixonada.

Ela é atraente. Ela tem uma família numerosa e feliz (já lá vamos). 
Ela tem um bebé com síndroma de Down. Mais importante para o seu eleitorado natural, ela não fez um aborto quando soube que estava grávida de um bebé com síndroma de Down. 
Ela tem uma filha adolescente grávida que vai ter a criança e casar, deixando de praticar o pecaminoso sexo pré-marital e mostrando todo o sentido de responsabilidade que não teve quando fez sexo sem protecção. 
Ela vive entre a Rússia e o Canadá, fazendo dela a candidata com mais experiência internacional (esta é boa demais para ser inventada). 
Ela caça e bebe como os homens de barba rija e diz que já é altura do "Joe Six-pack" (Zé Povinho, mas com muita cerveja e uma caçadeira à mistura) estar representado na Casa Branca. 
Ela é uma ex-candidata a Miss Alaska, a última fronteira americana, onde as pessoas são rijas e sabem como viver do que a terra dá (e dos subsídios do governo central: per capita, mais que qualquer outro estado americano). 
Ela acredita no creacionismo (e é a prova viva que a evolução não afecta algumas criaturas). 
Ela tem a certeza que o fim dos tempos está a chegar e que vai ser uma das eleitas de Deus (os democratas e republicanos mais abichanados serão consumidos pelo fogo). 
Ela é a republicana perfeita: agressiva,  conservadora até à estupidez, flexível quando convém (ver filha adolescente grávida), fundamentalista religiosa e populista: a única diferença entre ela e um pitbull, segundo a própria, é o batôn.
Ela é de uma cidade pequena, onde os valores ainda são autênticos, as pessoas genuínas e os anos 60, 70, 80, 90 e 0 nunca aconteceram.
Ela é patriota e os que não são como ela não são, e talvez sejam terroristas.
Ela acha que há livros que deviam ser banidos, não vão corromper as mentes frágeis das crianças com ideias como sexo antes do casamento e outras porcarias, como a capacidade para pensarem pelas suas próprias cabeças.

McCain arranjou a candidata perfeita para motivar os republicanos menos empenhados na sua candidatura. Depois de, sem sucesso, procurar o apoio de pregadores extremistas e passar a ser contra o aborto, ele precisava de fazer algo realmente radical para conseguir o apoio da ala mais conservadora (ler fundamentalista) do partido. 

O problema é que escolheu bem demais. Sarah Palin é mesmo tão ignorante, boçal, mal-formada e deficientemente informada como parece, para não falar de defeitos mais importantes como acusações de corrupção, má gestão de fundos e abusos de poder.

Assim que Sarah Palin começou a falar em público (sem a muleta de um discurso ensaiado), até analistas republicanos mais normais começaram a confessar um certo embaraço com a escolha do seu partido para vice-presidente. 

Quanto aos democratas, que de pitbull não têm nada, continuam sem saber como lidar com ela. 
Por um lado, gostam que Palin seja tão desadequada para o cargo que faz Obama parecer um poço de experiência por comparação. Por outro, têm medo de atacar a sua falta de experiência, não vão as pessoas reparar que Obama também não é exactamente um colosso nesse campo. 

Com receio de serem acusados de elitismo, sexismo e falta de patriotismo, os democratas vão hesitar no ataque directo até ao dia das eleições. É a sua natureza, um misto de cobardia (se não fizermos talvez eles não façam), ingenuidade (ver o aparte anterior) e mania de que estão acima dessas coisas. 

E se ela ganha, e se o mundo acaba, e se os rumores de que John McCain tem cancro forem verdade, e se ele morre ou fica incapacitado, e se ela for a próxima presidente dos Estados Unidos da América?

Agora que conhece Sarah Palin melhor, a América ficou preocupada.

O triunfo dos porcos




Quando o gigante dos seguros A.I.G. disse que precisava de ajuda, pediu 40 mil milhões de dólares ao governo americano.
Quando o Federal Reserve Bank, depois de muita discussão política, se decidiu pela intervenção, a conta já tinha subido para 85 mil milhões de dólares, mas o estado ficou com 80% da empresa e o dinheiro dos contribuintes seria recuperado com a venda de partes da companhia.
Afinal, era só o começo: a A.I.G. precisava de mais e a factura já subiu para os 123 mil milhões de dólares. As contas destas empresas parecem obras públicas: ultrapassam sempre o que estava no orçamento.

Esta hemorragia de capital público foi o momento em que os defensores do capitalismo mais desregulado (em todos os sentidos) se convenceram das virtudes da intervenção estatal. Seguiu-se o bailout de George Bush. E, claro está, seguiu-se o triste espectáculo de ver os executivos da A.I.G. a oferecerem a si mesmos férias de 400 mil dólares em spas de luxo. Deve ser para melhorar o espírito de equipa.

Toda a gente que esteve contra este bailout e contra o bailout gigante que se seguiu sabia que coisas como esta iam acontecer. Ou suspeitava. Por isso é que exigiam que o dinheiro fosse empregue de outra forma ou, no mínimo, que a sua utilização fosse rigorosamente supervisionada.

O que impressiona mais em tudo isto não é a boçalidade dos executivos da A.I.G. ou a ingenuidade (será que é mesmo?) dos políticos. É a lata.
Eles sabiam que o seu comportamento javardo ia fazer notícia. Mas continuaram a chafurdar porque não querem saber.

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Os bois e os ursos, no seu habitat natural




Afinal, o funcionamento dos mercados financeiros é muito simples. 
Mudar este comportamento de manada é que vai ser complicado. Uma manada precisa de ser mantida no curral ou encaminhada na direcção certa por um pastor que conheça bem a natureza das alimárias (a função dos governos e bancos centrais), ou ter um macho-alfa pouco assustadiço e que sabe para onde vai. 
Quando uns e outros não dão sinais de vida inteligente, o melhor mesmo é sair da frente e esperar que não haja uma ribanceira muito grande no caminho.

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

A nova desordem mundial


Quando Bush, pai, proclamou a chegada de uma Nova Ordem Mundial, o fim da história foi anunciado. O capitalismo e a democracia eram os destinos inevitáveis da humanidade, e da América viria a liderança benévola e esclarecida que nos mostraria o caminho.

Durou pouco.

A Somália ia ser a primeira amostra da Nova Ordem Mundial. O país estava devastado pela guerra tribal, as tribos estavam dizimadas pela seca, senhores da guerra roubavam a comida e medicamentos às agências humanitárias, tinha deixado de haver um governo funcional.
A expressão “estado falhado” era usada para definir o problema, mas o que a Somália tinha antes era um estado totalitário, e todos os estados totalitários merecem falhar. O problema é o que surge depois.

Na Somália, a solução possível eram as tribos. Mas a proliferação de armas veio romper as alianças e equilíbrios tradicionais do sistema tribal e o vazio foi preenchido por senhores da guerra que não tinham poder para controlar mais do que alguns bairros ou aldeias. 

A América ia agora liderar uma força de paz internacional para libertar os somalis de si mesmos e levar comida a todos os necessitados. Não havia qualquer interesse americano envolvido. A Somália não tem petróleo e não tinha terroristas. A operação era a primeira demonstração prática de como a Nova Ordem Mundial ia fazer do poder militar americano uma força para o bem, a paz e a democracia em todo o mundo.

Algumas tentativas de assassinar senhores da guerra somalis depois, os americanos ficaram chocados ao verem os corpos de alguns dos seus soldados a ser arrastados pelas ruas, mutilados e queimados. Aqueles selvagens não sabiam que eles estavam lá para ajudar? Os americanos foram embora pouco depois.

Desde então, a única coisa mais ou menos parecida com um governo capaz de ultrapassar as diferenças tribais foi demolida por aviões americanos e tanques etíopes. Porque era um governo de inspiração islâmica, logo, terrorista.

A ausência de um estado teve outro efeito para além de tornar a vida dos somalis difícil.
Nos anos que se seguiram à operação de paz, deixou de haver qualquer forma de controlo sobre as águas territoriais da Somália. O resultado foi uma espécie de faroeste aquático.
Barcos de pesca vieram de todo o mundo civilizado para pescar sem limites, controlo ou moderação. E sem terem de negociar licenças. Navios transportando resíduos tóxicos, vindos de todo o mundo industrializado, largavam o seu lixo ao largo, sem terem de pagar multas ou serem presos. Tudo o que se pode fazer ao mar mas não se deve foi feito.

Os efeitos na saúde das populações locais já se começaram a fazer sentir. A sua reacção também.

Os piratas que aparecem tanto nas notícias começaram por ser (segundo os próprios) a guarda costeira que o país já não tinha. Atacavam os arrastões industriais que pilhavam as suas águas, capturavam as tripulações que despejavam materiais tóxicos e faziam os criminosos que os enviavam para a região pensar duas vezes: será que ainda compensa?

O sucesso trouxe a imitação. Algumas estimativas colocam o número destes piratas modernos em cerca de 30 000. Os ataques também se diversificaram, passando a atingir barcos de cruzeiro e navios de carga inocentes numa das vias marítimas mais frequentadas do mundo. O que começou como “guarda costeira”, há muito que se tornou num negócio de captura e resgate muito lucrativo. O Golfo de Aden são as novas Caraíbas.

Como toda a gente que já foi criança, sempre tive um fraco por piratas. Ver um barquinho com motor fora de borda a tomar de assalto um enorme navio de carga moderno suscita um misto de admiração, incredulidade e espanto. Sim, são criminosos. Mas os piratas das Caraíbas também eram, e bem piores.
E gosto da ironia de ter sido a Nova Ordem Mundial, em larga medida, a criar a desordem que está a devolver protagonismo à pirataria.

Isto ainda dá em filme. Só falta inventar maneira de meter um aventureiro americano branco (um cruzamento de Tarzan com Jack Sparrow) a liderar um bando de terríveis piratas somalis (com um coração de ouro) contra terroristas islâmicos (porque sim) para ter um sucesso de bilheteira. 

Io-ho-ho e uma garrafa de cocktail molotov.

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Os bois e os ursos


Segunda-feira, o Dow Jones caiu 777 pontos, a maior descida de sempre num único dia. Terça-feira, voltou a subir 485.21 pontos, ou 4,7%: a terceira maior subida de sempre em pontos e o maior ganho percentual desde 2002.  

A queda representou uma perda de 1.200.000.000.000$00 para a economia americana. Os 700.000.000.000$00 do bailout de Bush, parece, não chegam para cobrir as perdas de um único dia de transacções. Claro que não é para isso que o plano serve, mas a segunda segunda-feira negra, em duas semanas, teve o mérito de tornar mais evidente a inutilidade do plano. 
Os 700 biliões (como dizem os americanos e as pessoas que se cansam de dizer milhares de milhões) não passam de um jeito que o governo quer fazer a Wall Street. 

A expressão "bull market" é usada para descrever um mercado optimista e em subida. "Bear market"descreve a tendência oposta.

Isto explica muita coisa. 
Os corretores da bolsa são como aquelas manadas de vacas dos filmes de cowboys: ao mínimo estampido, entram em debandada e levam tudo à frente. O chumbo do plano de bailout de Bush pelo Congresso Americano provocou a debandada de segunda. Os bois entraram em pânico, armaram-se em ursos e dinheiro suficiente para umas 30 Olimpíadas de Pequim (as mais caras da história) desapareceu. 

Ou não, que tudo isto é irreal. 
Para onde foram os 1.2 triliões (cansa ainda mais dizer milhar de milhares de milhões) de dólares perdidos na segunda? De onde vieram os biliões para a recuperação de terça? Esta riqueza existe mesmo, ou é só um agrupamento de pixels num monitor?

terça-feira, 30 de setembro de 2008

Queda livre



Os cartões que se viam em Wall Street pediam ajuda, esmola, trabalho. Como em Lisboa ou noutro sítio qualquer, quase ninguém dava por eles. 

Agora, os cartões pedem sangue. E toda a gente repara neles, a começar pelo Congresso americano, que votou contra o bailout dos senhores a quem os cartões de rua se referem. 

Estes expoentes máximos do capitalismo mais desregulado andam agora a rezar por um pouco de socialismo: a socialização dos seus prejuízos, para que se possam escapar com os lucros. Os contribuintes que paguem a crise. 

Sem perspectivas de futuro ou os mecanismos de segurança social desses países proto-comunistas que são as nações europeias, não surpreende que a classe média americana comece a levantar-se do sofá e a ir para o meio da rua com cartazes a apelar ao suicídio de toda uma classe profissional. 

Esta crise tem um lado bom: faz as pessoas verem exactamente o que acontece quando deixam a direcção da política aos políticos. E o que acontece quando os políticos deixam o mundo das finanças entregue a si mesmo, sem mecanismos de controlo e sem perspectivas de punição, seja nos tribunais ou nos mercados.

Os políticos não se importam que as pessoas digam que não passam todos de uma cambada de corruptos, ou de incompetentes, ou que são todos iguais. "Já não ligo à política" ou "já nem voto" são música para os seus ouvidos. 
O nosso desprezo e indiferença só tornam a sua vidinha mais fácil, e a sua corrupção mais natural. A culpa é toda deles? Sim. Mas eles são culpa nossa.

A Bolsa está em queda livre. Só faltam os corretores. 
Saltem, you fuckers.

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Mais vale nunca que tarde?


Ehud Olmert, o ex-primeiro ministro de Israel afastado do cargo por suspeitas de corrupção, afirmou numa entrevista o que nenhum primeiro ministro israelita alguma vez confessou em público.

Israel tem de sair dos Territórios Ocupados, por inteiro. No caso de ficarem com alguma parte da Margem Ocidental, devem ceder território equivalente noutro local. 
O estado Judeu tem de renunciar a Jeruslém Oriental, com algumas concessões especiais no acesso aos lugares santos da parte da Autoridade Palestiniana. Os 270 mil residentes árabes de Al-Quds são uma realidade incontornável, e ninguém quer que eles passem a ser cidadãos israelitas.
Os Montes Golã têm de ser devolvidos à Síria, com a contrapartida de esta deixar de apoiar o Hezbolá. 
Um eventual ataque de Israel ao Irão foi descrito como megalomania e falta de noção de realidade. O assunto deve ser deixado à comunidade internacional.
A doutrina de defesa Israelita é baseada, desde 1948, na teoria de que a ocupação de cada colina, de mais um metro de deserto é fundamental para a defesa e sobrevivência da nação. Olmert afirma que ninguém acredita realmente que isso faça alguma diferença para a segurança de Israel. Cada nova ocupação acaba por gerar novos problemas (ver guerras de 48, 56, 67, 73, 82).

Olmert continua a funcionar como primeiro ministro interino, até o seu sucessor formar um governo de coligação. O que quer dizer que não tem poder para fazer o que afirma achar que deve ser feito, depois de ter andado a fazer outra coisa quando tinha esse poder. 

A direita Israelita já veio dizer que estas afirmações são irresponsáveis e ameaçam a própria existência do estado de Israel. 
Os palestinianos, esses, aprovam as palavras. Mas eles sabem melhor que ninguém a diferença entre palavras e actos. E fazem, talvez, a mesma pergunta que ocorre a boa parte das pessoas que vêem esta notícia: 
Agora é que ele ganha uma consciência?

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Palin '08



Depois de Bush, Sarah Palin quase que parece uma escolha segura para vice de um candidato de 72 anos com sérios problemas de saúde. 
Mas não é, realmente. Ao escolhê-la como parceira na corrida à presidência, McCain (que a semana passada ainda dizia que a economia americana estava em grande forma) mostra mais uma vez que é uma escolha errada simplesmente porque faz as escolhas erradas.

Este Palin é que ele devia ter escolhido. 

Os 77 aceleradores de partículas


A crise em Wall Street fez guerras e eleições presidenciais passarem para segundo plano, pelo menos por uns tempos. Já só se fala mesmo do bailout das financeiras americanas. 

A escolha da palavra Bailout é esclarecedora. Bail é a fiança que um suspeito tem de pagar para se manter em liberdade até ao julgamento. Bailout é o acto de pagar essa fiança, isto é, de tirar alguém da cadeia para poder colocar a sua vida em ordem antes de ser preso, ou ilibado, de vez. Mas este bailout é diferente: a ideia é tirar os prevaricadores da cadeia, dar-lhes dinheiro pelo inconveniente e deixar o crime por punir. Bailout aqui é código para "safar de apuros escapando a um castigo merecido".

O bailout de que tanto se fala é um pagamento feito pelo estado, com dinheiro dos contribuintes, para safar alguns investidores da sua propria irresponsabilidade. 
Mas este bailout não é do sistema financeiro, é dos investidores. Não resolve nenhum problema excepto o deles, retirando-lhes todas as hipotecas "tóxicas" de cima, deixando-os vivos para especular mais um dia. Eles querem garantir que Wall Street continue a fazer dinheiro nem que seja às custas do resto da economia.

Os investidores e políticos que criticam a intervenção do estado na economia e defendem a desregulamentação do mercado e do sistema financeiro são os mesmos que agora afirmam que o estado tem de intervir para os salvar da desregulamentação do mercado e do sistema financeiro. Caso contrário, arrastam a economia para baixo com eles e vai ser tudo ainda pior. 

A economia americana vai precisar de uma correção mais cedo ou mais tarde. Quanto mais tarde for, pior vai ser a pancada. A última coisa de que eles e o mundo em geral precisavam agora é de um aumento da dívida pública da ordem dos 700.000.000.000$00. 

O projecto do CERN, foi muito criticado pelo seu custo exorbitante. O esforço financeiro de construir o gigantesco acelerador de partículas parecia excessivo e megalómano. 
Mas o retorno do investimento podia ser a descoberta de como era o universo no começo, ou mesmo de como o universo começou. Visto desta maneira, não parece assim tão mau negócio. 

O bailout de Bush dava para construir 77 aceleradores de partículas. 
O retorno desejado para todo este dinheiro? Acalmar a histeria de um mercado desregulado e desgovernado, por uns tempos. O resultado indesejado, mas mais provável: o adiar de uma solução para o problema e uma licença para continuar a agir de forma predatória e irresponsável. Afinal, eles sabem que são tão importantes que o governo tem de os salvar.

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Uma oferta que eles não podiam recusar


Desde que Bush apareceu em cima de um porta-aviões com uma linda faixa em fundo a dizer Mission Accomplished que a ocupação do Iraque tem sido uma tragicomédia de erros, desinformação e oportunidades perdidas. 
Tropas insuficientes, prioridades trocadas, corrupção, incompetência e um número de danos colaterais que, dependendo de com quem se fala, pode já ter chegado aos 100.000 civis iraquianos, para não falar de milhões de deslocados e mais de 4.000 soldados americanos mortos.

Depois, chegou o General Petraeus, a quem os políticos e comentadores americanos se parecem referir sempre num tom de quase reverência. A sua estratégia, apelidada de Surge alcançou o impossível em tempo recorde. O Iraque não é nenhum mar de rosas, mas também já não é o banho de sangue de há alguns meses atrás.
Até Barack Obama, numa incompreensível inversão de posições, já afirmou em público que o Surge de Petraeus teve um sucesso absolutamente inesperado.

Tudo seria muito lindo se fosse verdade. As tácticas da Al-Qaeda no Iraque, e a reacção das milícias da maioria xiita, alienaram a maioria dos iraquianos sunitas. 

Um acordo foi firmado com as autoridades americanas. Os terroristas impiedosos e impedernidos tornaram-se nas milícias de protecção dos cidadãos de hoje. E a primeira coisa que fizeram foi dar caça aos operativos da Al-Qaeda, enquanto o Surge americano, com meios adicionais em homens e material, separava xiitas de sunitas. O Irão também interveio, dando um contributo significativo, e nunca admitido, à relativa pacificação dos xiitas. 
Os inimigos de ontem tornaram-se nos maiores amigos de hoje.

A verdade é que os americanos pagam agora um ordenado a cerca de 90.000 ex-insurgentes Sunitas para eles ficarem sossegados. É como pagar a um ladrão para não nos roubar a casa, como o dinheiro de "protecção" que se paga à mafia porque a alternativa acaba por ser mais dispendiosa, ou dolorosa. O filme favorito do presidente americano já não é o Rambo, é o Padrinho. 

O que é que vai acontecer quando os americanos deixarem de pagar dinheiro de protecção? 

O governo de maioria xiita não quer integrar 90.000 dos seus inimigos sunitas na polícia e forças armadas. Os americanos não querem, nem podem, continuar a pagar para sempre. Quando a situação rebentar, o que vai acontecer inevitavelmente, todos poderão ver o que o tal de surge foi realmente: o momento em que o governo dos Estados Unidos disse "Se não podes vencê-los, compra-os".

McCain só espera que as coisas se aguentem até Novembro.

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

O casamento com o meu melhor amigo


O casamento entre homossexuais, nomeadamente do género masculino, é uma coisa hedionda e pecaminosa, uma abominação aos olhos do Senhor. Não é por acaso que os homens homos são chamados de sodomitas. Sodoma era uma cidade tão pecaminosa que Deus a destruiu com todos os seus habitantes.
Mas ganhou uma segunda vida como nome de uma prática bastante popular entre homens e mulheres, de todos os sexos. Tão popular, na verdade, que é um dos grandes mistérios da Bíblia que Deus se tenha encarniçado tanto contra esta cidade e a sua vizinha Gomorra.

O que é que Sodoma tinha de tão especial?
Se fosse apenas a sodomia, Deus não teria deixado a Grécia sobreviver ao período clássico e não haveria uma coisa chamada civilização ocidental.
Algo de pior se passava em Sodoma. Seria abuso de menores? Pouco provável: o sexo entre homens maduros e rapazinhos era quase uma instituição na Grécia antiga. E há muito padre que não é menino de coro. Mas gregos e Igrejas foram poupados à ira divina.

Será que os habitantes de Sodoma eram bestiais?
O sexo com animais não seria razão para os matar a todos e destruir a cidade. Afinal, Deus sempre mostrou uma certa predilecção por pastores, e estes sempre tiveram uma certa predilecção por ovelhas. E depois, o que é pior: comer o cordeiro de Deus enquanto está vivo ou matá-lo para fazer um assado?

A única explicação é que a ideia de que alguém, algures, se está a divertir mais do que nós sempre fez impressão às sociedades patriarcais do médio oriente. O sucesso que eles tiveram na exportação da sua moralidade determina que, 2000 anos depois, o casamento homossexual escandalize e polarize tanta gente. Em vez de se preocuparem tanto com pessoas que querem casar mas por acaso são do mesmo sexo, deviam preocupar-se antes com a quantidade de heterossexuais que se anda a divorciar por tudo e por quase nada.

Só sou contra o casamento homossexual com separação de bens.
Se dois moços (ou duas moças, não sejamos sexistas) resolvem juntar os trapinhos, ao menos que o façam a sério, com comunhão de bens, total ou de adquiridos. Ou será que querem o direito ao matrimónio para depois fazerem como esses casais de inclinações heterossexuais, que tomam a precaução de casar com separação de bens já a pensar no dia do divórcio?

O sodomita entusiasta não deve casar só porque quer levar mais benefícios fiscais para casa, ou ter mais facilidade em pedir um empréstimo bancário. Se ele não acredita nos valores sagrados da família, mais vale não dar o passo e continuar a viver em pecado.

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Jon Stewart, 11 de Setembro de 2001


Jon Stewart é um comediante que, por vezes, é levado demasiado a sério. Mas raramente pelo próprio. Como ele está sempre a dizer, The Daily Show é só um programa de notícias a fingir. Que para muita gente seja o melhor e mais fiável serviço informativo da televisão americana diz muito sobre o triste condição de retransmissores de verdades oficiais em que a maior parte dos meios de comunicação actuais se tornou.

Gostem ou não do Daily Show, num dia em que ninguém estava com vontade de rir, Jon Stewart foi trabalhar. O resultado: a mais emocionada, comovente e convincente defesa do modo de vida americano, no dia em que esse mesmo modo de vida sofreu um dos piores ataques de sempre. Por estas e por outras é que, por uns tempos, fomos todos americanos.

8 minutos de Jon Stewart, e da América, no seu melhor. Para o pior podem ir aqui.

terça-feira, 16 de setembro de 2008

O flagelo de Deus



O creacionismo, por estes dias disfarçado como design inteligente, usa o coisinho acima, o flagellum, como prova provada de que existe uma inteligência superior que determina a forma de todas as coisas.

O argumento é que um apêndice locomotor de tamanha complexidade, no qual cada parte é essencial ao movimento do todo, não poderia ter evoluído naturalmente. Nalgum ponto da sua existência, Deus (se bem que o Seu nome nunca é invocado) interveio para dar uma forma de locomoção às bactérias, e colocar Darwin no seu lugar. A conclusão: se a evolução não aconteceu neste caso, então tem de ser posta em causa em todo o lado.

Os creacionistas dizem sempre “Teoria da evolução”, com todo o enfâse na palavra teoria. Para eles não passa de uma abominação, mas como não querem parecer religiosos fanáticos que interpretam a Bíblia literalmente, tudo o que propõem é que as escolas ensinem as teorias alternativas nas aulas de ciência. “Ensinem a controvérsia”, dizem, como se a pseudo-ciência do design inteligente estivesse no mesmo plano da ciência da evolução.

Numa época em que até igrejas como a Católica reconhecem a teoria da evolução como cientificamente provada (o que não coloca em causa a existência de um Criador), o país mais rico e tecnologicamente avançado do mundo não só continua a discussão ciência vs creacionismo, como este último parece estar a ganhar cada vez mais adeptos.

Cerca de 45% dos americanos acreditam que Deus criou os seres humanos mais ou menos como são hoje, nalgum momento nos últimos 10.000 anos, um número muito superior ao da generalidade dos países europeus (sim, também temos muito disto).

Toda a gente tem direito a acreditar no Deus, ou deuses, que quiser, desde que não comece a raptar crianças recém-nascidas para rituais satânicos. Mas os creacionistas querem sair das salas de Religião e Moral e entrar nas salas de biologia. Querem substituir ciência por crença, passar fé por facto e trocar educação por doutrinação.

Com os dois candidatos à presidência americana a clamarem aos quatro ventos o seu amor incondicional a Deus (recentemente adquirido ou não), não é de prever que os Estados Unidos se livrem tão cedo deste flagelo.

p.s. A teoria da evolução também explica o flagellum. Só não explica mesmo os creacionistas. Talvez eles devessem usar a sua incapacidade de evoluir como argumento.

Lembram-se de quando éramos jovens?



Richard Wright não era a estrela dos Pink Floyd, como era Syd Barrett antes de fritar o cérebro, ou Roger Waters antes de bater no muro ou mesmo David Gilmour. Mas Richard Wright, teclista e membro fundador, era a alma da banda e a eminência parda que tornava o seu som tão característico e inovador (há muitos, muitos anos atrás). 
Os Pink Floyd souberam fazer Wish you were here e Shine on you crazy diamond em homenagem a um dos seus membros falecidos. Mas já não têm o talento para homenagear Richard Wright como ele merecia. Entre outras razões, porque já não tem Richard Wright. Fica o lamento.

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

O amigo do meu inimigo


Os Estados Unidos são inimigos da Al-Qaeda, que é inimiga do Irão, que é inimigo dos Estados Unidos, que são inimigos dos xiitas iraquianos, que são inimigos dos sunitas que são apoiados pelos Sauditas, que são aliados dos americanos, que pagaram aos sunitas iraquianos, ex-aliados da Al-Qaeda, para atacarem antes as milícias xiitas, que controlam o governo iraquiano que é aliado da América e próximo dos Iranianos, que são inimigos dos Taliban, que são apoiados pela secreta paquistanesa e pela Al-Qaeda contra o governo afegão, que é aliado dos Estados Unidos na luta contra Osama Bin Laden, que se refugia no Paquistão, que é um aliado dos americanos, que são aliados da Índia, que é inimiga do Paquistão. 

O amigo do meu inimigo é o quê, ao certo?

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

As virgens e os suicidas


O Alcorão promete houris de belos olhos aos guerreiros que morrem em defesa do Islão. De acordo com teólogos de vocação mais contabilística, 72 virgens estão em modo de espera nos Jardins do Paraíso, prontas para receber o falecido herói da fé. O que acontece depois depende da noção de paraíso que cada um tem.

O Alcorão também promete todo o fogo e torturas do Inferno aos suicidas e uma recepção igualmente calorosa e definitiva para os assassinos. Simples, claro e directo. 

Mas não há nada como a criatividade tortuosa e o cinismo de um teólogo de moralidade duvidosa para convencer centenas de jovens desesperados a cometerem suicídio pelo Islão. 

O argumento que eles apregoam é, também ele, muito simples: se houver outra maneira de provocar danos ao teu inimigo, o suicídio está errado. Mas quando se defronta as maiores potências militares mundiais, como os Estados Unidos, Israel ou o Reino Unido, a assimetria de meios militares é tão grande que o suicídio é promovido a martírio e passa a estar inteiramente justificado. E o inferno é trocado pelas tais 72 moças. 

Claro que o erudito teólogo que apresenta o argumento nunca veste um colete com alguns quilos de explosivos antes de subir para o autocarro. A sua missão de arranjar novos mártires para a causa é demasiado importante.

Mas há uma coisa que fica por cobrir: as bombistas-suicidas. Uma mulher nos Territórios Ocupados ou em Gaza pode estar tão deseperada como um homem, ou mais, e ver o martírio pirotécnico como um estilo de morte aspiracional.
O que levanta um problema: se, como diz o Alcorão, homens e mulheres são iguais aos olhos de Deus, os resultados do martírio deveriam ser semelhantes. 

Mas para um recrutador religioso, dizer a uma rapariga que tem 72 mocetões à sua espera no Paraíso pode ser um assunto bastante delicado. 

O futuro do terrorismo talvez esteja no bombismo paralímpico. 
Se um bombista suicida inspira terror, o que pensar de seres humanos que estão dispostos a usar pessoas com deficiências mentais como portadoras de bombas detonadas por controlo remoto? Ao menos não lhes prometem nada.

Falta referir as crianças bombistas, que também as há. 
Se disserem a um miúdo de 9 anos que tem 72 virgens à espera, ele é capaz de não pensar duas vezes e fugir a 7 pés para o pé dos amigos. Talvez lhes andem a prometer um paraíso repleto de Nintendo Wii, XBox e Playstation III, com 72 jogos por estrear. Até eu caía nessa.

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

O mundo não acabou, hoje


O CERN foi activado hoje, às 8 e meia da manhã. Num esforço para descobrir a causa de todas as coisas, a começar pelo Big Bang, partículas sub-atómicas foram disparadas no interior de um imenso acelerador de partículas subterrâneo com 27km de circunferência. 

O que estava em causa? De um lado, o consensual, a possibilidade de descobrir os segredos da origem e evolução do universo. Do outro, o alarmista, a possibilidade da criação de um buraco negro capaz de destruir o planeta Terra numa reacção em cadeia incontrolável.

Como já passa da hora do almoço, seria de supor que os cientistas mais pessimistas, ou cautelosos, estivessem errados. Mais uma vez, o planeta ficou a salvo dos seus habitantes.

Quando testaram a primeira bomba atómica, muitos cientistas também receavam de que o fenómeno da fissão nuclear, uma vez iniciado, desencadeasse uma reacção que destruiria o mundo. O teste foi realizado de qualquer maneira, o mundo não acabou e a era nuclear começou, anunciando um mundo novo de possibilidades infinitas para a raça humana, e a doutrina da Destruição Mútua Assegurada.

Quanto ao acelerador de partículas, com os seus protões excitados e os seus cientistas ainda mais, talvez seja melhor não começar a celebrar o sucesso desde já. É que ainda não escapámos desta: eles só aceleraram partículas num sentido. A colisão de partículas sub-atómicas a velocidades próximas da velocidade da luz que gerará partículas que não existem desde o princípio dos tempos revelando o que aconteceu quando o universo foi criado, ou não, é lá mais para finais do Outono. 

Partículas sub-atómicas colidem com a Terra, e umas com as outras, todos os dias, sem que venha daí daí algum mal. O que causa receio a muita gente é que, agora, sejam humanos que o estão a fazer. 

A fé na ciência não é tão forte como o medo do desconhecido.

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Os meios de repetição


Abram um jornal de hoje e verão as notícias de ontem. Liguem a televisão hoje e verão as notícias do jornal de amanhã. Mas se querem realmente saber o que vai ser noticiado nos canais de televisão e jornais portugueses, vejam sites de notícias estrangeiros.

Esta afirmação pode ser injusta para os jornalistas que continuam a procurar fazer o seu trabalho, contra tudo e contra todos. 
Mas é uma descrição exacta desses meios que cortam nas despesas cortando na sala de redação, substituíndo jornalistas a sério por hordas de estagiários mal pagos, cuja função é navegar na net há pesca de notícias para depois as traduzirem, muitas vezes com erros, incongruências ou asneiras de quem não domina completamente a língua de Shakespeare ou é ignorante e não percebeu do que é que eles estavam a falar.

O fim do jornalismo de investigação é o triunfo do jornalismo de reprodução. Os repórteres já só reportam. O ónus da reflexão e da interpretação passou do transmissor para o receptor. 

A única excepção a este triste estado de coisas parece ser o jornalismo desportivo, que possui uma capacidade quase milagrosa de gerar conteúdos sobre futebol até quando não há futebol a acontecer. E basta ler um ou dois artigos para perceber que são escritos por pessoas que sabem realmente do que estão a falar. 

Infelizmente, o futebol não é coisa que me fascine, e o triste espectáculo da política portuguesa (que mais ninguém no mundo parece notar ou noticiar, logo, ainda requer algum trabalho jornalístico), também não.

Para saber o que se passa lá fora, prefiro fazer o que os "jornalistas" cá de dentro fazem: jornalismo de navegação. 
Assim sempre me antecipo um dia ou dois e não tenho de perder tempo a tentar perceber que raio de coisa estaria escrita no original da notícia mal traduzida que tenho à frente.

Que futuro têm os jornais se hipotecam a sua capacidade de gerar conteúdos e apenas reproduzem a informação de meios mais rápidos do que eles?

A propósito, quanto tempo mais durarão os sites de jornais que dão notícias de graça? 
Perdem leitores nas edições de papel e não ganham nada com os leitores da edição digital. As receitas da publicidade nos sites não são e nunca vão ser suficientes para pagar as despesas de operação, muito menos para dar lucro. 
Se começam a cobrar, as pessoas vão a outro site: "porque é que havemos de pagar se podemos ter de graça?"  E há sempre um site mais além que não cobra nada, ou que se limita a ir buscar os conteúdos a outros sites e não tem de pagar a ninguém para pensar. 

Há uma resposta? 
Pergunta o gestor com visão de futuro: "Quanta gente ainda ficou por despedir na sala de redação?